A voz
O infinito é infinitamente infinito, incomensuravelmente infindo, intangível, irreduzívelmente infinito....
- Vovozinha bom dia! É hora do seu remedinho!
Abro os olhos e vejo uma enfermeira infinitamente obesa, fitando-me com um olhar cínico.
Mas ela me chamou de vovozinha! Como se completei só 60 anos há pouco tempo!
Tento me movimentar e noto que os meus braços estão firmemente atados à cama.Na duvida, peço para enfermeira trazer um espelho.
- Vovozinha a senhora não vai querer se maquilar a esta hora né?
Vovozinha é a tua mãe! Pensei, enquanto a enfermeira empunhava um espelho na minha frente. Meio sonolenta olhei para a imagem anuviada, que aos poucos ia se tornando mais nítida. Gritei, olhando para aquela figura, que mais parecia personagem da pintura “O grito” de Edvard Munch!
Os meus cabelos em pé, estavam completamente brancos. Lembrei-me de ter ouvido certa vez, historia de um japonês, que foi a guerra, e devido ao extremo pavor, os seus cabelos teriam ficado completamente alvos, de noite para dia.
- Vovozinha! É a hora do choquinho! Apareceu um medico com a cara de raposa, sorrindo com os olhos minúsculos, através dos óculos fundo de garrafa.
Aquele “choquinho” atravessou o meu corpo, e me fazia tremer convulsivamente, tal qual um mega terremoto que arrasou o Kantou.
Agora entendia a razão do meu terror, que fez mudar a coloração dos meus cabelos.
Num estado obnubilado, a minha memória começou a retroceder, no tempo e no espaço.
Eu me vi sentada na minha sala, em frente ao computador. Estava já no final de verão, e lia despreocupadamente os e-mails que tinham chegado. Achei um e-mail do meu irmão. Ele sempre se preocupava em mandar alguma coisa interessante, como desenhos, histórias, animações e vídeos de sua autoria, pois dizia que queria me ver um pouco mais alegre, nesta terra distante.
- Ohmmmm! Tem um soft anexado, ele diz que é interessante, então vejamos...
Após a instalação, apareceu um papagaio na tela, que seria um protetor de tela animado e falante!
Mas o tal papagaio falante aparecia poucas vezes , e não pronunciava sequer uma palavra!
Resolvi perguntar posteriormente para meu irmão. Fui fazer os meus trabalhos habituais e depois, fui preparar a refeição.
Quando estava na cozinha, ouvi uns pios que pensei em se tratar de algum passarinho na varanda. Retornei para o computador e vi na tela, aquele papagaio dando pios e olhando para mim. Não me importei muito e retornei aos meus trabalhos.
Após um dia de trabalho fui deitar já tarde da noite. Mas, de madrugada fui acordada por uma voz estridente que gritava:
- Acorda! Acorda! Acorda! Tá na hora! Pulei da cama e dirigi-me em direção a voz. Quando cheguei na sala, vi aquele papagaio saltitando e gritando na tela do monitor.
Fui desligar , mas o papagaio me encarou e disse: - Você tem certeza que quer desligar?
- Sim! , disse eu, e já ia desligando, quando o papagaio berrou: - Socorro! Socorro! Socorro! Acudam-me!
Apavorada olhei para fora, e vi todas as luzes dos apartamentos vizinhos irem acendendo. Imediatamente, ouvi uma sirene de um carro da policia chegar na porta do edifício, e num segundo estavam batendo na minha porta.
- Foi o papagaio! Disse trêmula apontando para o computador.
- Que papagaio? Perguntaram os dois policiais.
- Aqui no computador! Disse eu, tentando acessar o programa, mas por mais que procurasse, a tal praga falante tinha desaparecido.
Os dois policiais ficaram me olhando com desconfiança, e após um sermão, de não incomodar mais os vizinhos, foram embora.
Voltei para cama, e tentei dormir mais um pouco.
- Bom Dia! Bom Dia! Que lindo Dia! - Nãoooooohum!!! Vai começar tudo de novo! Procurei acessar o manual do programa para que pudesse deletar de vez.
- Hum! Aqui diz: Atenção: embora o nosso programa seja de alta tecnologia chinesa, a presente versão é Beta, e está sujeito a alguns bugs! Procure usar corretamente e desfrute dos momentos agradáveis, que o papagaio lhe proporcionará!
- E cadê o “uninstall” !!! Não, não colocaram!!! Sem condição de eliminá-lo, pensei em ignorar. Mas o papagaio maluco, descontrolado, voltou com toda carga a me amedrontar.
Além de me acordar a qualquer hora da noite, anunciava as mais disparatadas agendas: - É hora de escovar os dentes! Cuidado com o seu pivot! - É hora de tomar o banho! Lave bem as orelhas! - É hora do almoço! Cuidado não coma só ochazuke! - É hora de ir ao supermercado! Traga semente de girassol para mim! - É hora de dormir! Para caminha, para caminha!
Eu estava quase pirada, mas o pior estava para acontecer. Eu tinha esquecido um detalhe, de que os papagaios acabavam aprendendo a falar e imitar a voz da pessoa que esta próxima.
E aí ele começou a imitar com perfeição a minha voz, e pior, a gritar as palavras aqui impublicáveis. - Ei seu Kudó, é verdade que o sr......... - Ei sr Kagawa! Ainda está ........ - Ei sr Nakagaki! Não venha..... E por aí vai, depois dessa é claro, fui expulsa do apartamento, por decisão unânime dos condôminos, e obrigada a levar junto o meu lap-top.
Mas, a todo lugar que me mudava, continuava a mesma confusão.
De repente voltei ao presente, e estava na cama do hospital. Notei que as tiras que me prendiam, estavam frouxas, e fazendo força, consegui me desvencilhar e pude levantar. Achei no armário um roupão, e saí ao corredor. Já era noite alta, e não vi nenhum vulto.
Dirigi sorrateiramente à escada de emergência, e desci as carreiras. Saí pela porta dos fundos do hospital e achei um telefone publico.
Liguei a cobrar para meu irmão. Após alguns toques alguém atendeu.
- É meu irmão? Você precisa me ajudar! Venha me buscar aqui e rápido!
- Alô? Quem fala aqui não é o insano! Não sou insano! Não sou insano! E odeio o papagaio chinês!!!
Postei um comentário até longo, mas na hora de postar foi apagado!
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